[Logica-l] [OFF] ciência, pseudo-ciência, e o dinheiro público

Joao Marcos jmarcos em dimap.ufrn.br
Sexta Outubro 26 19:21:42 BRT 2007


Olá, Artur: [aboli o "h" para o seu nome ficar mais elegante na nossa
língua :-) ]

> Em que sentido tal seletividade é científica? Se a acupuntura, por exemplo,
> é reconhecidamente eficaz, por que ainda não existem Cursos de Acupuntura
> oferecidos pelos Centros de Saúde das universidades? Certamente isto não se
> dá pela suposta imparcialidade da ciência oficial, ou em nome de pretensos
> métodos "científicos", mas sim em função de hábitos e interesses políticos,
> de continuar detendo com exclusividade recursos públicos ou particulares.

Deve haver algum engano aqui.  Cursos de acupuntura são atualmente
oferecidos em boa parte das universidades brasileiras, privadas e
públicas!  Com relação ao propósito científico de tudo isto, recordo
que há pouco tempo foi publicado um estudo na Lancet Neurology
(http://www1.folha.uol.com.br/folha/bbc/ult272u51391.shtml) mostrou
que a taxa de cura de enxaqueca da "acupuntura verdadeira" é
ligeiramente superior à taxa de cura do tratamento alopático
convencional e a taxa de cura da "acupuntura falsa".  Melhor do que
isto ainda não vi.

Agora, com relação à *seletividade* da "ciência oficial", que bom que
isto é assim!  No momento em que VALER TUDO não teremos mais nada
parecido com *ciência* tal como a conhecemos...  De todo modo, a
discussão neste ponto sai um pouco da Lógica, contudo, e entra na área
da Filosofia da Ciência, na qual eu não me aventurarei aqui.

Com relação ao investimento do dinheiro público em outras terapias
"complementares" ou "alternativas" de eficácia e cientificidade
duvidosas, o Ministério da Saúde aparentemente já escolheu um rumo bem
diferente deste que você anuncia.  A Portaria MS/GM nº 971 de
05-05-2006 "determina a inclusão de acupuntura, homeopatia,
fitoterapia e termalismo social/crenoterapia nos serviços públicos de
saúde".  Em http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/ult510u245.shtml
há um artigo interessante, escrito pelo filósofo Hélio Schwartsmann,
sobre a (in)conveniência política e econômica de tal portaria.

Ah, o Hélio também já escreveu há 2 anos sobre o Núcleo de Estudos de
Fenômenos Paranormais da Universidade de Brasília
(http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/ult510u206.shtml), por
ocasião da promoção do "I Encontro Nacional de Astrologia do Brasil".
Na nota de contestação publicada no mesmo dia
(http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u13587.shtml) o tal
núcleo de estudos esclarece que o que eles fazem é apenas "pesquisa
multidisciplinar representando o elo entre o meio acadêmico e a
sociedade", e invocam os princípios constitucionais do "pluralismo de
idéias" e a "liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o
pensamento, a arte e o saber".  Finalmente, eles escrevem que "o NEFP
prima por abrigar, quando aprovadas, linhas de pesquisa tais como
Ufologia, Astrologia e Conscienciologia".  Com o dinheiro público,
claro.  (Curiosamente, o engenheiro Paulo Gomes, então chefe e atual
membro daquele núcleo de estudos, e que assina a nota de contestação,
não menciona o NEFP ou qualquer de seus temas de pesquisa
multidisciplinar em seu longo currículo Lattes --- talvez por "razões
políticas"?)

Falta o quê?  Que as universidades públicas brasileiras ofereçam
cursos sobre o Criacionismo, a Teoria do Design Inteligente, ou a
Teoria da Terra Chata?  É este tipo de "relativismo científico" que
você prega, Artur?

JM


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