[Logica-l] RES: religião, ciência e política --- sem lógica

Desidério Murcho desiderio.murcho em gmail.com
Segunda Setembro 15 04:30:00 BRT 2008


O que é realmente importante é saber que justificação há para acreditar ou
não acreditar em tais coisas. 

 

E ainda mais importante é não fechar a possibilidade da discussão inventando
métodos especiais “igualmente válidos”, mas que 

1) são insusceptíveis de ser discutidos; e 

2) implicam que os aceitemos previamente antes de os discutirmos, o que
torna a discussão uma farsa, e 

3) implicam uma epistemologia de excepção: invocam metodologias de
descoberta das coisas inerentemente diferentes das maneiras banais como
descobrimos as coisas banais da vida. Qualquer epistemologia de excepção é
sempre uma farsa. Se não podemos justificar a crença de que há deus da mesma
maneira que podemos justificar a crença de que há leite na geladeira ou da
mesma maneira que podemos justificar a crença de que hoje é segunda-feira, é
porque não podemos realmente justificar a crença de que há deus e estamos
apenas a inventar uma patranha para fingir que o podemos fazer. Sinal disto
é o seguinte: quem despreza os métodos banais com os quais sabemos que a
água é H2O, é o primeiro a aceitar esses mesmos métodos quando estes parecem
apontar na direcção das suas crenças preferidas. O que mostra que só se
despreza tais métodos quando sabemos, no nosso mais profundo íntimo, que
tais métodos eliminam as possibilidades maravilhosas em que gostamos de
acreditar porque são confortáveis espiritualmente. Quem põe o conforto do
seu mesquinho espírito à frente da procura honesta da verdade não pode ser
um bom investigador e na verdade prostitui os métodos abertos e críticos que
os investigadores seguem há milénios, contra todos os obscurantismos que
procuram fazer-nos crer sem qualquer razão para tal que é possível conhecer
as coisas sem usar tais métodos. 

 

Um abraço,

Desidério

 

From: Francisco Antonio Doria [mailto:famadoria em gmail.com] 
Sent: segunda-feira, 15 de Setembro de 2008 1:15
To: Desidério Murcho
Cc: Logica-L
Subject: Re: [Logica-l] RES: religião, ciência e política --- sem lógica

 

Vamos fazer uma enquête aqui? quem acredita que nas tripas do porco
sacrificado se pode ler o futuro/ quem acha que Hermes Trimegisto tem as
verdades inefáveis do Antigo Egito?

fa

2008/9/15 Desidério Murcho <desiderio.murcho em gmail.com>

A ciência, seja ocidental ou não (e admitindo que tal coisa faz realmente
sentido, coisa que não faz), não merece qualquer respeito. Pelo contrário,
só há ciência, quando não há respeito. Há ciência quando há crítica aberta,
discussão desassombrada e quando não se aceita a ideia evidentemente falsa
de que algumas pessoas têm um acesso privilegiado à verdade e que por isso
merecem um respeitoso e reverente silêncio crítico. Fazer parar o pensamento
é o que fazem as tradições sapienciais, as religiões, as atitudes que gostam
de se apresentar como epistemicamente tolerantes, mas que são de facto
epistemicamente totalitárias. Tudo nestas práticas foi cuidadosamente
concebido para fazer parar a crítica, o pensamento, a pergunta incómoda, a
interrogação desassombrada. Isto consegue-se relativizando tudo menos o que
se quer introduzir como Verdade insusceptível de ser posta em causa. Põe-se
em causa que dois mais dois sejam quatro, mas não que uma cantilena cantada
à beira de um rio possa ajudar a purificar a água, ou que nas tripas de um
porco se encontra, se olharmos bem, a chave da compreensão do futuro. 

 

Não é talvez fácil compreender o que é a ciência precisamente porque
infelizmente a maior parte das universidades, sobretudo as menos boas,
transmitem a ciência aos estudantes como quem recita salmos na missa sem
perceber bem o que está a dizer. Mas nunca devemos confundir os maus ensinos
da ciência com o que permitiu e permite aos cientistas uma compreensão
muitíssimo mais profunda, rigorosa e precisa do que alguma vez foi possível
em qualquer tradição sapiencial. 

 

Acresce que acertar na verdade por acaso não é relevante para se poder dizer
que uma dada metodologia funciona. A agricultura empírica teve de acertar
mais ou menos por acaso, pois de contrário os seres humanos ter-se-iam
extinguido. Mas acertar por acaso é muito diferente de saber justificar
adequadamente o que acerta. E mais diferente ainda é a atitude de estar
sempre aberto a refutar as justificações que pensávamos que funcionavam.
Esta abertura só é possível quando se recusa a ideia de que há pessoas,
textos ou tradições que têm um acesso privilegiado à verdade. Não há tal
coisa. Somos todos falíveis e cognitivamente mais ou menos iguais, e tudo o
que podemos fazer é avaliar criticamente todas as ideias, com cuidado e
imparcialidade, sem dogmatismos e sem sonhar alto. Na verdade, quanto mais
uma ideia é agradável emocionalmente, religiosamente, espiritualmente ou
seja como for, mais devemos precavermo-nos contra a ideia de que estamos a
sonhar alto, encontrando nas coisas o que antes lá pusemos porque queríamos
que lá estivesse só porque nos faz felizes. Procurar a verdade das coisas é
um acto de pressupõe uma superação do desejo infantil de fazer a realidade
ser exactamente o que gostaríamos que fosse. 

 

Um abraço,

Desidério

 

From: logica-l-bounces em dimap.ufrn.br [mailto:logica-l-bounces em dimap.ufrn.br]
On Behalf Of Arthur Buchsbaum
Sent: domingo, 14 de Setembro de 2008 22:19
To: 'Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de
LOGICA'
Subject: [Logica-l] RES: religião, ciência e política --- sem lógica

 

Ciência, essencialmente, é conhecimento sistematizado e organizado, em seu
mais elevado sentido.

 

Nesta acepção, práticas científicas não são exclusivas da Europa. Existem e
existiram formas científicas ao redor do mundo, como por exemplo: Egito
Antigo, Maias, Incas, Índia, Suméria. Outras formas de Ciência não a
praticam exatamente da mesma forma que a Europa (e filhos) dos últimos
séculos, mas, nem por isso, deixam de ser Ciência, até muito pelo contrário.
Os Druidas, por exemplo, desenvolveram formas de canalização de energia para
a agricultura e pecuária, cujo manejo é bem mais natural e menos agressivo e
tóxico que as formas modernas. Isto também é Ciência, pois parte de um
conhecimento e leva a aplicações bem relevantes, embora não seja Ciência no
sentido europeu estrito, mas merece no mínimo tanto respeito quanto a
Ciência moderna.

 

A acupuntura, originária da China, também possui um extenso corpo
sistematizado de conhecimentos e uma ampla gama de aplicações na saúde. É,
portanto, Ciência, e é muito mais eficaz, em vários sentidos, que a Medicina
convencional.

 

O Hermetismo, vindo do Egito Antigo, é um corpo de conhecimentos que deu
diversos frutos no Ocidente, como, por exemplo, as práticas agrícolas e
pecuárias dos Druídas. Pitágoras estudou, segundo muitos, nos templos dos
Mistérios Egípcios, e Platâo foi um de seus frutos. É, portanto, Ciência, no
mais elevado grau. É uma ciência viva, com a sua plêiade de estudiosos e
praticantes, mas ao largo do mundo acadêmico tradicional.

 

Um abraço,

Arthur Buchsbaum

 

De: Francisco Antonio Doria [mailto:famadoria em gmail.com] 
Enviada em: domingo, 14 de setembro de 2008 21:27
Para: Arthur Buchsbaum
Cc: Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de
LOGICA
Assunto: Re: [Logica-l] RES: religião, ciência e política --- sem lógica

 

Arthur,

Ciência ***é*** européia. Formas de conhecimento como acupunctura, sufismo,
doutrinas ditas herméticas (na verdade coisa bem recente, tipo os
rosacruzes) podem até ter seu valor, mas nada que tenha o valor e a eficácia
da ciência e tecnologia modernas.

Ontem estava conversando, câmera ligada, via Skype, com meu filho mais velho
e minha nora; eles moram nos EUA. Qual a diferença entre isso e uma bola de
cristal de conto de fadas? Ciência e tecnologia realizam muito do projeto
das artes mágicas esotéricas, ou dos contos de fadas...

fa

2008/9/14 Arthur Buchsbaum <arthurrovabu-logica em yahoo.com.br>

Tampouco considero que uma decisão tão importante pode ser tomada
exclusivamente por cientistas formados pelas universidades tradicionais,
como parece que vem sendo feito, até porque tais universidades pecam pela
incompletude e fragmentação.
(http://wwwexe.inf.ufsc.br/~arthur/pontosdevista/A_UniversidadeFragmentada_e
_Incompleta.pdf
<http://wwwexe.inf.ufsc.br/%7Earthur/pontosdevista/A_UniversidadeFragmentada
_e_Incompleta.pdf> )

 

A atual fauna e flora vem de uma evolução de pelo menos centenas de milhões
de anos, e ainda não são suficientemente conhecidas as conseqüências da
introdução na Natureza de novos genótipos, não acho que toda a população
deveria servir de cobaia a experimentos das grandes empresas que visam
sobretudo o lucro.

 

O conhecimento vindo da ciência de origem européia ainda é muito incompleto
e fragmentado para que o mesmo possa servir de suporte exclusivo à tomada de
decisões tão importantes, que podem envolver uma alteração completa da fauna
e flora.

 

É preciso consultar também peritos provenientes de outras formas de ciência
não oriundas da Europa, e muitas outras coisas mais. Entre tais formas,
exemplifico: as doutrinas herméticas do Antigo Egito, as doutrinas chinesas,
o sufismo, etc.

 

Um abraço,

Arthur Buchsbaum

 

 

De: Francisco Antonio Doria [mailto:famadoria em gmail.com] 
Enviada em: domingo, 14 de setembro de 2008 08:14
Para: Arthur Buchsbaum
Cc: Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de
LOGICA
Assunto: Re: [Logica-l] RES: religião, ciência e política --- sem lógica

 

Um ministro ou ministra de área cujos fundamentos - a ecologia - vêm da
ciência e que tem que decidir sobre soja transgênica etc, não pode ser
criacionista. 

2008/9/14 Arthur Buchsbaum <arthurrovabu-logica em yahoo.com.br>

O que está sendo apontado abaixo pelo colega João Marcos não deveria ser
confundido com Religião, mas sim com formas ideológicas disfarçadas de
religião.

Religião vem do latim "religare", que quer dizer religar com o Todo. Uma
experiência religiosa plena é um estado de consciência de união com o Todo,
um estado de inefável felicidade e paz, de bem-aventurança, de amor. Levar
todos a tais vivências foi a verdadeira intenção de grandes avatares tais
como Jesus, Buda, Muhammad, Bahá'u'lláh e outros. Os mesmos não têm culpa se
das formas religiosas originais apareceram eventualmente diversas ideologias
fanáticas.

O Rio Tietê também nasce puro e límpido na Serra do Mar, mas, quando passa
por São Paulo, o mesmo passa a ser muito sujo. Isto não é culpa da nascente
deste rio, mas sim dos poluidores que vão descarregando neste rio os mais
diversos dejetos. Assim também acontece, em geral, com as religiões, ao
longo de sua história.

Isto não tem nada a ver com ideologias dos mais diversos matizes ou com
dogmas.

São tais ideologias dogmáticas disfarçadas de "religião" que confundem muita
gente, e denigrem a essência do significado de Religião.

No entanto, eu simpatizo com a ex-ministra Marina Silva, pelo seu trabalho
enquanto ministra, e agora enquanto senadora. Ela tem todo o direito de
sustentar as suas crenças, assim como todos os demais. Ela não deveria ser
discriminada por questões de crença, mas sim deve ser avaliada pelos seus
atos, os quais tem revelado boas intenções e uma mulher de boa índole.

Um abraço,
Arthur Buchsbaum

 


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