[Logica-l] falhas graves da "filosofia" acadêmica ocidental

Arthur Buchsbaum arthurrovabu-logica em yahoo.com.br
Quarta Setembro 17 13:54:15 BRT 2008


Caro colega Prof. Desidério Murcho:

Primeiro quero parabenizar o senhor pela co-autoria do livro “Enciclopédia
de Termos Lógico-Filosóficos”, um livro do qual adquiri há anos um exemplar,
do qual saiu recentemente uma nova edição ainda mais atualizada, e que tenho
indicado aos meus alunos.

Não sou erudito em Filosofia, mas uso idéias neste nível, entre outras
aplicações, para a modelagem de sistemas lógicos, como por exemplo em “A
Logical Expression of Reasoning”, um sistema que pretende refletir o método
científico europeu
(http://wwwexe.inf.ufsc.br/~arthur/publicacoes/artigos_revistas/ALogicalExpr
essionofReasoning.pdf).

Quero expor o que sinto a respeito da "Filosofia" praticada nas academias,
especialmente a ocidental. Com isto não quero desmerecer de nenhuma forma
gente do quilate de Platão, Hegel, Kant, etc., os quais são alguns dos
grandes luminares da Filosofia mundial. Quero relatar aqui especialmente a
impressão que tem me dado a filosofia praticada nas universidades no
dia-a-dia, enquanto alguém de fora dos departamentos e centros de
“filosofia”, mas que tem contatado estes ambientes ao longo dos anos.

A Filosofia, especialmente a praticada no Ocidente, padece de alguns graves
problemas, entre eles:
(1) Só são considerados, basicamente, os filósofos de uma certa linhagem
canônica, principiando por Platão e pré-socráticos, e prosseguindo por
alguns filósofos medievais, até alguns filósofos da era atual. Não são
praticamente considerados filósofos de quilate tais como todos da linhagem
Vedanta e Sânquia, da linha hindu, e que deveriam merecer todo o respeito e
consideração, e da linha taoísta e budista da China e Japão (pois o Budismo
e Taoísmo são também filosofias, não simplesmente religiões). Na era atual
são desconsiderados filósofos tais como Krishnamurti, Osho (ou Rajneesh) e
todos os da linha da Filosofia Perene (http://www.perennial.org). Também são
ignorados por completo os filósofos da Tradição Hermética, começando por
Hermes Trismegisto (ou Thoth), Pitágoras, Apolônio de Tiana, Jacob Boehme,
Salomão e outros. Tal atitude assemelha-se ao comportamento de um avestruz
que esconde a cabeça em um buraco, para ignorar, talvez por medo, tudo o que
se passa em sua volta.
(2) Em decorrência do problema anterior, a filosofia acadêmica ocidental tem
se afastado da admiração e respeito da maioria da elite intelectual e mesmo
do resto da população do Ocidente, isto porque as necessidades intelectuais
da maioria da população são, em grande parte, ignoradas pelos academicistas
ocidentais, que continuam, em sua maioria, a passar o tempo a dissecar e
redissecar apenas textos de uma lista bem restrita, e a fazer análises e
re-análises, muitas vezes de uma forma bem pedante, de um número bem pequeno
de fontes, com respeito à magnitude das referências existentes.
(3) A Filosofia Ocidental tem se reduzido, na era atual, a uma atividade
intelectual no sentido mais restrito. Não se nota qualquer engajamento
expressivo por parte da maioria dos modernos professores de Filosofia.
Enquanto Sócrates e Platão pregavam uma mudança profunda na vida de cada um,
até nos menores detalhes, para a descoberta da plenitude da Existência, da
Verdade e da Beleza, muitos dos que hoje se dizem “filósofos” passam o tempo
em várias análises pedantes, mas apresentam as mesmas falhas psicológicas e
de conduta que aquelas da população circundante. Não se nota nenhum
benefício em sua vida pessoal, nenhuma transformação, não obstante a
destreza intelectual que apresentam para dissecar os textos de sua restrita
linha “escolástica”. Neste sentido, ao visitar quase qualquer um dos
departamentos ou centros de filosofia do Ocidente, podemos observar formas
de conduta tais como a mentira, a maledicência, a intriga, a ocorrência de
vícios tais como o fumo ou alcoolismo, e o orgulho. Pergunto-me daí quais os
reais benefícios de tal atividade intelectual restrita, se não são
observadas transformações mínimas em cada um que se pretende “filósofo”?
Tais falhas de caráter são a antítese do que pregavam os pais da Filosofia
Ocidental, tais como Sócrates e Platão.

Maiores detalhes estão nos artigos:
• “Tendências Atuais da Filosofia”, de Jean-Yves Béziau
(http://wwwexe.inf.ufsc.br/~arthur/pontosdevista/Tendencias%20Atuais%20da%20
Filosofia.%20Jean-Yves%20Beziau.pdf);
• “A Universidade Fragmentada e Incompleta”, em
http://wwwexe.inf.ufsc.br/~arthur/pontosdevista/A_UniversidadeFragmentada_e_
Incompleta.pdf.
• “O que quase todos somos e o que podemos ser”, em
http://wwwexe.inf.ufsc.br/~arthur/pontosdevista/O_que_quase_todos_somos_e_o_
que_podemos_Ser.pdf.

Muitos poderiam desconsiderar o que acabei de dizer, pois eu não sou formado
em Filosofia, sequer a nível de graduação. O Prof. Jean-Yves Béziau, no
entanto, é formado, nesta área, em todos os níveis acadêmicos, e vem tecendo
sérias críticas à atividade acadêmica dos presentes centros e departamentos
de “filosofia”.

a) Arthur Buchsbaum


De: logica-l-bounces em dimap.ufrn.br [mailto:logica-l-bounces em dimap.ufrn.br]
Em nome de Desidério Murcho
Enviada em: quarta-feira, 17 de setembro de 2008 01:11
Para: Logica-L
Assunto: Re: [Logica-l] Sem Lógica

Caros colegas

Gostaria de fazer alguns esclarecimentos. Em parte porque há coisas que me
irritam. Irrita-me que se fale de filosofia numa lista académica como se a
filosofia fosse lixo que não vale a pena estudar porque a Ciência (com
maiúscula reverencial, quiçá religiosa) é que é o Verdadeiro Conhecimento. E
depois vê-se que ler uns livritos de filosofia e estudar um bocadinho da
minha disciplina até seria boa ideia. 

Comecemos por esta afirmação do colega Ricardo: “seria tomar o conhecimento
científico actual como último e insuperável”. Bom, o conhecimento é factivo
o que significa que se alguém, seja quem for, sabe que P, é verdade que P e
isso é insuperável, seja conhecimento científico ou de taxistas. Uma coisa
completamente diferente são as crenças científicas. Estas podem ser revistas
unicamente porque as crenças não são factivas. Mas, claro, que interesse tem
estudar um pouquinho de filosofia? Que interesse tem poder pensar com mais
clareza do que um amador em questões evidentemente filosóficas? Nenhum,
porque a filosofia é lixo. Nem para distinguir cuidadosamente o conhecimento
de crença, coisa que qualquer estudante do primeiro ano de filosofia de
qualquer departamento que se preze sabe fazer, vale a pena estudar esta
miséria acientífica chamada filosofia. 

Segundo, repare-se nesta concepção de metafísica: uma caracterização
completa da realidade. A coisa até está próxima do que podemos encontrar em
qualquer boa introdução à metafísica, como a do Lowe ou do Loux. Só que isto
é tomado como um sonho de loucos, um devaneio que não é Científico, e que
nos lança no domínio da mera opinião. A fobia pela objectividade e pelos
resultados chega a este ponto: somos obrigados a especular, mas não sabemos
como isso se faz porque se despreza a disciplina onde se aprende a especular
com rigor, precisamente porque essa disciplina não é Científica e não
apresenta resultados. Ironicamente, se não aprendermos a especular nunca
aprenderemos a produzir resultados excepto os resultados quotidianos da
ciência banal e quotidiana — e não os resultados da ciência imaginativa,
nova, arriscada.

Estou à muito tempo nesta lista e devo dizer que não me surpreende o
desprezo a que se vota a filosofia e o desconhecimento da bibliografia mais
básica. Isto é comum entre os meus amigos cientistas portugueses, mas não é
menos idiota por isso. Espero que o Ricardo e os outros colegas não fiquem
zangados comigo, mas é tempo de os colegas saberem uma coisa: discutir temas
filosóficos como quem discute futebol é um insulto aos muitos filósofos que
roubam tempo à sua pesquisa para publicar bons livros introdutórios, que
permita que qualquer leitor inteligente aprenda pelo menos um pouco de
filosofia para poder discutir esses temas de uma maneira intelectualmente
sólida. Livros de introdução à filosofia da religião, à teoria do
conhecimento, à filosofia da ciência, para citar só alguns casos. 

E pronto, desculpem-me o desabafo. Mas ponham-se no meu lugar: como
reagiriam se eu desatasse a falar de computação sem mostrar o mínimo domínio
da área nem mostrar qualquer interesse em estudar a bibliografia adequada?
Filosofia, caros colegas, não é cultura geral que se faz nos intervalos de
fazer ciência séria. É uma disciplina altamente especializada, que exige um
treino demorado e um conhecimento da bibliografia relevante, assim como das
teorias, problemas e argumentos em causa. 

Um abraço,
Desidério



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