[Logica-l] RE: RES: falhas graves da "filosofia" acadêmica ocidental

Rodrigo Oliveira rodrigo.sdo em hotmail.com
Sexta Setembro 19 03:58:34 BRT 2008




Entendo o que defende Arthur, creio. Pra você a filosofia está
vinculada a um projeto de salvação, como o chama Schopenhauer, por exemplo
(alias, um exemplo claro de que a filosofia oriental não foi de todo
esquecida). A filosofia busca uma salvação sem Deus, sem dogmas, uma salvação
através do pensamento crítico. Trata-se de buscar o conforto, mas não a
qualquer custo. A filosofia de certo modo substitui as religiões como doadora
de sentido para a vida. Não é apenas questão de buscar conforto, esse
conforto tem que passar pela crítica. Os grandes questionamentos da filosofia
surgem da constatação da finitude do homem: somos seres finitos e temos consciência disso ("Buda foi originalmente um filósofo que buscou uma solução para o problema da morte, doença e velhice").
Grosso modo a questão central da filosofia é: qual o sentido da vida? Ou ainda: Como atingir a vida feliz? Não se trata de aderir a um credo e pronto, trata-se de alcançar a vida boa, exige esforço e empenho e a razão é o principal instrumento. Esse projeto perpassa a história da filosofia. Sócrates mesmo vai
dizer que a filosofia nos prepara para a morte. A filosofia de Epicuro e dos estóicos retratam bem isso. Montaigne diz "filosofar é aprender a morrer". Uma das perguntas centrais da filosofia para Kant é "O que nos é permitido esperar?" 



Outro modo de colocar a questão: A metafísica
englobava o individuo e dava sentido a vida para os gregos, o individuo só encontra seu sentido na polis, ela fornece a unidade, fora da polis há animais ou deuses. Na idade media o mundo era um palco para a
salvação, Deus dava sentido e mantinha a unidade. O indivíduo encontra sentido ao relacionar-se com essa estrutura objetiva que o engloba. Nos séculos seguintes o
individuo foi emergindo, ganhando importancia e o Estado é que passa a conferir esse sentido e mantem a unidade. O indivíduo, apenas, não encontra sentido, o sentido tem que ser coletivo. Hoje o individuo foi alem e nada parece se sobrepor a ele, nada nos engloba e nos une, nem metafísica, nem Deus e nem Estado. Eis porque sentimos falta de legitimidade, de
algo que dê sentido a nossas vidas, de uma vida autêntica. Sempre houve uma estrutura objetiva que nos
englobasse e nos fornecesse sentido, hoje nada parece cumpir essa função:
caberia a filosofia essa tarefa? Muitos acreditam que sim. Muitos buscam
respostas na filosofia oriental. Mas o grande astro aqui é o biocentrismo e a
consciência ambiental. Muitos consideram que a tarefa da filosofia hoje é encontrar uma alternativa capaz
de unir a importancia do indivíduo e da liberdade com uma estrutura objetiva que dê sentido.

Junto com o projeto da salvação não religiosa, outro projeto que desde cedo acompanha a filosofia é o projeto de fundamentação do conhecimento. Existem várias ciências, mas estas ciências, por sua natureza axiomática, não fundamentam seus axiomas, cabe a filosofia faze-lo, nomeadamente à metafísica: ciência dos primeiros princípios, ciência das ciências e etc. Em suma um sistema capaz de unificar as ciências tendo como chão a filosofia.Que alguns se 'perdem' no
caminho e ficam apenas com joguinhos intelectuais e quebra-cabeças creio que você quer dizer que eles ficam apenas nesse projeto que envolve questões epistemológicas e ontológicas, sobretudo. Com a virada linguística e a virada pragmática depois outros problemas surgiram. Note que muitos rejeitam conscientemente a questão da salvação ou consideram ela um aspecto secundário. Talvez a própria palavra salvação não agrade alguns, mas significo com ela o que você mesmo disse: "Uma boa filosofia deveria servir para todos os fins, para mobilizar todo o organismo humano em suas mais diversas facetas."
Se for isso que você acredita, bom a filosofia ocidental não está tão mal quanto você diz. Você encontrará isso em praticamente todo grande filósofo
ocidental (alguns desconsideram a questão da salvação e tem motivos para isso). Nietzsche diz de Kant que toda a Crítica da Razão Pura serve
apenas para tirar ética e religião do campo de disputa da razão e protege-las. O edificio moral é o que Kant no fundo quer defender. Defender a ética e 
a possibilidade da salvação. (No livro Aurora, número 3 do prefácio). Salvando a religião do campo de disputa da razão ele mostra seu interesse na salvação.
Descartes age de modo parecido, preocupa-se sobretudo com a questão da fundamentação, deixa a salvação para a religião. Os filósofos ateus de igual
modo tem uma teoria da salvação.

Eu não recomendaria pesquisas de universidade para um publico leigo. Elas são
por natureza literatura especializada, mas direta ou indiretamente se referem
sim a essa questão da filosofia como salvação. A filosofia tem uma tarefa a cumprir na questão do conhecimento e da
ética, mas sim, essa questão da salvação sempre esteve presente. Reduzir a filosofia a pensamento crítico e autonomia ou a um pensamento
rigoroso não é correto, isso é uma condição necessária para realiza-la, mas não
suficiente. O cerne da filosofia é a finitude humana e a salvação
não-religiosa.



É algo assim Arthur? Eu não me interessaria tanto pela filosofia se ela não
tivesse esse lado, mas compreendo bem as razões para rechassar esse ponto de
vista. Ainda não estou certo se ela deve ser mantida hoje ou não. Heidegger e Popper por exemplo abandonaram a questão da fundamentação última. Outros abandonam a questão da salvação. Note contudo que os dois maiores filósofos do século passado são Heidegger e Wittgenstein, em Heidegger a questão da salvação se identifica com da vida autêntica que grosso modo consiste em fazer filosofia e em Wittgenstein, Paulo Margutti mostra bem a questão da salvação no Tractatus (Iniciação ao Silêncio, alias passou um semestre na India para entender melhor esse silêncio místico) e nas Investigações a salvação consiste grosso modo em não pensar metafísicamente, uma 'terapia filosófica'. Li um artigo que mostra algumas semelhanças entre a filosofia das Investigações e o Zen.

Escrevi correndo e grosso modo. Claro, deveriamos aprofundar mais em vários pontos, mas fica uma imagem, serve para nos orientarmos.

Agora quanto ao Russel, nutro o mesmo respeito por ele, mas olha o que ele disse: "No seu octogésimo aniversário, Russell
ofereceu um conselho típico
de longevidade. Recomendou 'um hábito hilariante de controvérsias olímpicas', que nos mantivesse ocupados e que evitássemos todos os tipos de excessos -
excepto fumar. ("Até à idade de quarenta e dois anos
fui um abstémio. Mas, nos últimos sessenta anos tenho fumado incessantemente,
parando somente para comer e dormir")"


Abraço

Rodrigo


From: arthurrovabu-logica em yahoo.com.br
To: logica-l em dimap.ufrn.br
Date: Wed, 17 Sep 2008 20:10:00 -0300
Subject: [Logica-l] RES: falhas graves da "filosofia" acadêmica ocidental



















Caro Rodrigo, com
respeito à reportagem citada da Revista “Isto É”, vejo apenas uma
sede cada vez maior do público por um conhecimento mais elevado, e daí tal
público supõe que o mesmo pode ser encontrado nas pesquisas de “filosofia”
das universidades. As mesmas oferecem ao público no máximo diversos jogos
intelectuais de quebra-cabeças, diversas formas de excitação intelectual, o que
é capaz de aplacar a sede intelectual de muitos, mas não a sede daqueles que
possuem um discernimento para reconhecer que a busca da Verdade não consiste em
montagens de quebra-cabeças e solução de enimas intelectuais, mas sim em um
comprometimento e engajamento de todo o organismo, de todo o corpo físico,
emoções, intelecto e intuição para focalizar o Sentido essencial de Tudo.

 

a) Arthur
Buchsbaum

 





De:
logica-l-bounces em dimap.ufrn.br [mailto:logica-l-bounces em dimap.ufrn.br] Em
nome de Rodrigo Oliveira

Enviada em: quarta-feira, 17 de setembro de 2008 17:43

Para: logica-l em dimap.ufrn.br

Assunto: [Logica-l] FW: falhas graves da "filosofia" acadêmica
ocidental





 



Arthur: 

Segue uma notícia que mostra que seu ponto de vista Arthur está, no mínimo,

desatualizado. A filosofia está na moda na verdade.

A velha crítica sobre a filosofia acadêmica não procede, creio eu, são inúmeras

as obras de divulgação e de aproximação com o público.

Mesmo assim soa estranho afirmar que por não incluir a filosofia oriental o
público

desgostou da filosofia. Não vejo qualquer relação.



Filosofia em alta - Revista Isto É: http://www.terra.com.br/istoe/edicoes/2014/artigo91916-1.htm


 
  
  
   
    
    Comportamento
    
    
    
    
    
     
    
    
    
    
   
  
  
 
 
  
   
  
 
 
  
  Filosofia
  em ALTA

  Ela é disciplina obrigatória nas escolas, mania na tevê, nas empresas e até
  nos livros para crianças

  

  RODRIGO CARDOSO
  
  
   
    
    
    
   
   
    
    CONTEÚDO
    Gabriela Campana, 17 anos, reúne-se com amigos para debater as idéias de
    Nietzsche e Maquiavel
    
   
  
  
  Empresascontratam filósofos
  para palestras e consultorias, crianças de cincoanos travam o primeiro
  contato com o tema e, fora da sala de aula,adolescentes se reúnem para
  debater idéias de Nietzsche e Platão.Nascida na Grécia há mais de dois mil
  anos, a filosofia encontraterreno cada vez mais fértil no Brasil – até
  mesmo na tevê. No programaFantástico, da Rede Globo, o quadro “Ser ou
  não ser” sobre filosofiaentrará em sua terceira temporada. “A
  filosofia está em alta”, afirma afilósofa Viviane Mosé, apresentadora
  da atração. Ela, que carrega omérito de tornar didático um tema pouco
  palatável, conclui: “O que estáem baixa é a forma acadêmica de
  pensar.”

  A crítica deViviane é para o projeto de lei,
  recém-sancionado pelo governo federal,que obriga as escolas do País a incluir
  filosofia e sociologia nocurrículo do ensino médio. “Da maneira como o
  ensino é fragmentado, afilosofia vai ser mais uma decoreba sobre quem é
  Sócrates e quandonasceu Platão”, teme ela. Mas há boas iniciativas,
  como a do Centro deFilosofia Educação para o Pensar – Filosofia com
  Crianças, Jovens eAdolescentes, que ensina o tema para alunos a partir de
  cinco anos.Constituída de educadores e filósofos, o centro tem parcerias com
  300escolas do País. O método de ensino faz o aluno discutir filosofia emtodas
  as disciplinas, e não apenas em uma matéria. “Prestamosassessoria
  pedagógica para professores e produzimos o materialdidático, que é adaptado
  ao nível cognitivo do aluno”, explica JoséCarlos Freire, assessor
  pedagógico do centro. Filósofo e professor daPontifícia Universidade Católica
  (PUC) de São Paulo, Mário SérgioCortella também foca nos filósofos mirins.
  Ele lançará este ano O que épergunta, seu primeiro livro sobre filosofia para
  crianças. O interessedo mercado editorial pelo tema é crescente.

  “Pormuito tempo, a tecnologia fez o mundo focar
  no ‘como’ em detrimento dos‘porquês’ e, enfadadas,
  hoje as pessoas procuram reflexões”, explicaCortella. No
  ano passado, ele deu 30 palestras sobre filosofia e ética para gestores do
  Banco Bradesco.“Ficou chique
  consumir filosofia”, diz o acadêmico, que discursa aindaaos
  funcionários da metalúrgica Gerdau sobre a diversidade humana. NoRio, a
  filósofa Viviane segue o mesmo caminho. “Ajudo o executivo a lero que
  acontece no mundo contemporâneo e a agir no presente”, afirma.

  Entreseus clientes estão a Petrobras, a Vale, O
  Boticário e o Banco deDesenvolvimento do Espírito Santo, que a contratou para
  falar sobreética e comprometimento aos funcionários. Um dos maiores centros
  decursos livres na área de humanidade, a Casa do Saber também percebe omaior
  interesse pelo tema. Criada em São Paulo, hoje atua também no Riode Janeiro e
  expandiu o número de cursos de filosofia de nove, em 2004,para os atuais 175.

  Componente curricular excluído daescola pela
  ditadura em 1968, a filosofia seguiu existindo em colégiosparticulares, como
  o Santo Américo, em São Paulo, que desde 1975 ensinaa disciplina. Aluna do
  terceiro ano do ensino médio, Gabriela Campana,17 anos, reúne-se com amigos,
  durante as férias, para debater as idéiasde Nietzsche e Maquiavel. E filosofa
  ao falar do valor do conhecimento:“Para estabelecer princípios e formar
  uma maneira própria de agir épreciso saber como outras pessoas pensavam o
  mundo e tentavammelhorá-lo.”

  

  

  http://www.terra.com.br/istoe/edicoes/2014/artigo91916-1.htm
  
 


 







_________________________________________________________________
Conheça o Windows Live Spaces, a rede de relacionamentos do Messenger!
http://www.amigosdomessenger.com.br/
-------------- Próxima Parte ----------
Um anexo em HTML foi limpo...
URL: http://www.dimap.ufrn.br/pipermail/logica-l/attachments/20080919/be8aafc4/attachment.htm 


Mais detalhes sobre a lista de discussão Logica-l