[Logica-l] RES: falhas graves da "filosofia" acadêmica ocidental
Desidério Murcho
desiderio.murcho em gmail.com
Sexta Setembro 19 11:14:04 BRT 2008
Caro Rodrigo
Há certas afirmações factualmente falsas que são de evitar. Eis algumas:
“Grosso modo a questão central da filosofia é: qual o sentido da vida? Ou
ainda: Como atingir a vida feliz? Não se trata de aderir a um credo e
pronto, trata-se de alcançar a vida boa, exige esforço e empenho e a razão é
o principal instrumento. Esse projeto perpassa a história da filosofia.
Sócrates mesmo vai dizer que a filosofia nos prepara para a morte. A
filosofia de Epicuro e dos estóicos retratam bem isso. Montaigne diz
"filosofar é aprender a morrer". Uma das perguntas centrais da filosofia
para Kant é "O que nos é permitido esperar?"”
O que estás a fazer é supressão de provas. Apontas vários exemplos
favoráveis à tua generalização, mas escondes tudo o que refuta a
generalização. A maior parte das obras da maior parte dos filósofos não
trata do problema do sentido da vida. Há muitíssimos mais capítulos e livros
inteiros sobre outras temas, como a natureza da verdade ou a possibilidade
do conhecimento, a natureza das propriedades.
Por que razão chamo a atenção para isto? Porque nenhuma discussão séria
sobre estes temas pode ter lugar se partirmos logo de falsidades históricas.
Podemos e devemos ter opiniões divergentes sobre se o sentido da vida devia
ou não ser a questão central da filosofia, grosso modo. Mas não devemos
basear as nossas divergências em puras falsidades históricas. Hume nunca
escreveu sobre o sentido da vida, Tomás de Aquino tem pequenas passagens
apenas em que fala disso, Schopenhauer escreveu muito mais sobre a natureza
da representação e da realidade do que sobre o sentido da vida.
Na verdade, a grande ironia quanto a pessoas como o Arthur, que dizem ter
muito interesse em temas como o sentido da vida, é o puro desconhecimento da
bibliografia recente sobre o tema. Isto acontece porque essa bibliografia
não dá ao Arthur o tipo de música das palavras que ele busca, uma música que
lhe dê conforto espiritual. Tudo o que se encontra nessa bibliografia
(Wiggins, Nozick, Nagel, Levy, Baier, Metz, Taylor e tantos outros,
incluindo eu próprio) é a discussão de ideias, e não paliativos infantis
para as dores de alma. A filosofia não é religião e por isso não tem
qualquer tipo de interesse para quem procura conforto espiritual.
Espero ter desestabilizado mais uma vez os amigos e colegas da lista. É o
meu jeito idiota de ser. Mas não gosto de opiniões baseadas em
desconhecimento das coisas, nem de hipocrisia: pessoas que querem realmente
uma coisa mas são incapazes de declarar abertamente o que realmente querem.
Eu não vejo problema algum em querer conforto espiritual, querer uma coisa
qualquer mística, para-religiosa, etc. Mas chamar-lhe filosofia é uma
falsidade histórica, pura e simplesmente.
Abraços,
Desidério
-------------- Próxima Parte ----------
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