[Logica-l] RES: Sem Lógica

Arthur Buchsbaum arthurrovabu-logica em yahoo.com.br
Segunda Setembro 22 00:07:05 BRT 2008


Desidério: Nada nos escritos da maior parte dos filósofos permite afirmar
que o objectivo deles era encontrar conforto espiritual.

Arthur: Isto depende do que entendes por “filósofo”. Talvez queiras dizer
que muitos daqueles que são considerados “filósofos” pelas academias
ocidentais não fazem ou faziam conjeturas a respeito da felicidade. No
entanto, todos os verdadeiros filósofos buscam compreender o sentido da
Vida, mesmo que vários de tais filósofos não sejam ainda assim considerados
pela maioria dos academicistas do ocidente. Vou citar alguns, do período
mais recente: Fritjof Capra, Krishnamurti, Eckhart Tolle, Osho (foi
professor por anos em uma universidade da Índia). Krishnamurti, por exemplo,
deu palestras ao redor do mundo por cerca de cinqüenta anos, e despertou a
atenção de vários representantes da elite intelectual do Ocidente (cito,
entre seus admiradores, Aldous Huxley e David Bohm), mas continua sendo
praticamente ignorado, até onde eu conheço, pelos academicistas ocidentais).
É por isto que a “filosofia” acadêmica ocidental vem se tornando impopular
entre a elite consciente, pois, em grande parte, tem perdido a “crista da
onda” há muito tempo.

Desidério:  A filosofia serve e tem servido para muitas coisas ao longo da
história, e qualquer pessoa pode evidentemente fazer o que lhe apetecer
dela.

Arthur: Não é bem assim, o limite para o que define Filosofia é sempre a
Verdade. Se alguém tenta distorcer a mesma para “fazer o que lhe apetecer
dela”, então tal atividade não é mais Filosofia. Pode ser manipulação
intelectual de jogos mentais, mas não merece ser chamada de Filosofia. Nada
contra a prática de exercícios intelectuais para o adestramento mental, mas
cada prática deveria ter um nome adequado, e não um nome para falsamente
seduzir e enganar o público. Um filósofo, etimologicamente, é um amigo da
Verdade. Quem prefere brincar com jogos deveria ser chamado de “filójogo” ou
algo assim.

Desidério: Mas a mentira histórica em nada nos ajuda a ter uma visão mais
clara das coisas. E a verdade é que muitos filósofos encaram como função
principal da filosofia a procura de verdades (e não da Verdade religiosa), e
não o conforto espiritual. Até porque muitos filósofos não acreditam sequer
que tenhamos espírito ou alma (conceitos extremamente difíceis de articular
coerentemente, quanto mais tornar plausíveis).

Arthur: Não há mais que uma Verdade. Não existe uma Verdade da Filosofia
distinta da Verdade das Religiões, de forma que ambas sejam distintas da
Verdade da Ciência. A visão que o senhor expressa vem de uma crença na
fragmentação de tudo. O senhor acredita que “conforto espiritual” se deveria
buscar em alguma religião, enquanto que uma busca analítica ou inteletual de
verdades pela “filosofia”, etc. Falas de alguém fragmentado que satisfaz
cada necessidade em um lugar específico, como se não houvesse de fato
conexão entre tudo.

Ricardo: Acho que TODOS temos a contribuir nessa jornada em busca da
Verdade, que, no fundo, é uma busca da Verdade sobre nós mesmo (mesmo que
existam os que não se dêem conta disso).

Desidério: Não concordo, se me for permitido. A maior parte das verdades não
são sobre nós mesmos, excepto quando temos uma concepção algo narcísica da
verdade, sacrificando-a ao que nos é confortável.

Arthur: O senhor não concorda em decorrência do que me parece ser uma visão
fragmentada da Vida. Se a Verdade está em tudo e em todos, até mesmo na
ponta de um palito de fósforo, se até uma partícula contém toda a Verdade,
por que um ser humano não poderia encontrar a mesma em seu íntimo, também? O
senhor está enganado ao supor que a busca do “conforto” ou da Paz íntima é
cômoda e indolor, com freqüência ocorre exatamente o contrário, pois aquele
que busca olhar a Verdade face a face talvez encontre um abismo
incomensurável infinito, o que em geral dá medo e até pavor a quase todos
que A fitam. Só quem ousa ultrapassar tal abismo para ver o que há adiante
talvez encontre a resposta a tudo, e certamente a mesma não se traduz no
conforto que muitos poderiam encontrar em uma aconchegante sala de estar,
praticando os seus joguinhos intelectuais ou de outra natureza do dia-a-dia.
Certamente é mais fácil para a maioria continuar jogando a vida toda, mas
isto não deveria ser chamado de Filosofia, e não foi assim que Sócrates e
Platão a praticaram. Se a maioria dos academicistas de hoje prefere
continuar jogando, isto não implica que Filosofia seja isto, pois a Verdade
não é algo, necessariamente, que está com a maioria, não é decidida pela
opinião da maioria.

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